sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Produção do Dossiê pelo CECP Garante Título de Patrimônio Cultural do Brasil ao Cortejo da Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito

Foto: Alberto Lefèvre

Estudo antropológico e histórico realizado pelo Centro de Estudos da Cultura Popular (CECP) fundamentou a decisão do Iphan que reconhece a celebração de Guaratinguetá (SP).

O Cortejo da Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito de Guaratinguetá (SP), é oficialmente patrimônio cultural do Brasil. O registro foi aprovado por unanimidade durante a 114ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, realizada no Auditório do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília (DF). O bem imaterial passa a integrar o Livro de Registro das Celebrações, que reúne rituais e festas marcantes da vivência coletiva, religiosidade e práticas sociais do país.

O reconhecimento nacional é fruto direto de um amplo e minucioso trabalho de pesquisa e elaboração do dossiê de registro conduzido pelo Centro de Estudos da Cultura Popular (CECP). A instituição dedicou-se a mapear os documentos e fontes que indicam sua permanência no tempo.

A Pesquisa Histórica Conduzida pelo CECP

O trabalho do CECP permitiu documentar detalhadamente como o cortejo une duas tradições culturais e religiosas fundamentais da região do Vale do Paraíba:

  • Saberes do Caminho: Conceito elaborado pela equipe do CECP, faz referência ao mundo rural, dos cavalos e muares, e dos muitos caminhos percorridos pelas pessoas que viviam do trânsito, principalmente de tropas de mulas, no Vale do Paraíba nos séculos XVIII e XIX. Segundo a memória local, tropeiros e viajantes, os Homens de Caminho, ergueram na cidade a Capela de São Gonçalo do Amarante em 1726, em homenagem ao padroeiro dos viajantes.

  • Saberes do Rosário: Já consagrado por um Dossiê do IPHAN de mesmo nome, são os saberes e práticas culturais, espirituais e sociais ligadas à devoção afro-católica em alguns estados do Brasil, principalmente Minas Gerais e São Paulo, e incluem rituais como coroações de reis congos e outros. Em  Guaratinguetá, no ano de 1757, pessoas escravizadas colocaram na mesma capela a imagem de São Benedito, fundando a Irmandade de São Benedito dos Irmãos Pretos Cativos da Vila de Guaratinguetá que instituiu ali a Festa de São Benedito, com seus reis coroados.

A pesquisa do CECP registrou que, embora não haja data exata para o início do formato anual do cortejo, alguns dos registros encontrados podem sugerir que o cortejo já estava integrado à Festa de São Benedito, sob a liderança de chefes comunitários, logo no início do século XX, segundo fontes de periódicos regionais.

O dossiê elaborado pelo CECP também registrou as transformações sociais que garantiram a vitalidade da tradição a partir dos anos 1970. Foi nessa década que ocorreu um marco histórico: a entrada das mulheres na Cavalaria, impulsionada por Vera Aparecida de Paiva França — filha do chefe Evandro Paiva, chefe da manifestação desde 1975 —, que se tornou a primeira mulher a sair montada, simbolizando a mudança na estrutura do cortejo, garantindo a justa participação das mulheres.

Esse período de renovações culminou na fundação formal da Associação Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito (ACSGSBG) em 1992, instituição que passou a gerenciar o cortejo com estatuto e regimento próprios. Hoje, o cortejo conta com um grupamento feminino consolidado e com a participação de crianças de 8 a 13 anos, conhecidas como mantenas mirins, garantindo a transmissão dos saberes tradicionais.

O Ritual e a Geografia do Cortejo

Anualmente, no Domingo de Páscoa, o cortejo mobiliza cerca de dois mil cavaleiros pelas ruas de Guaratinguetá. Trajando branco, os participantes percorrem cerca de 20 quilômetros dispostos em duas filas. O trajeto inclui paradas solenes nos cemitérios da cidade, onde os cavaleiros homenageiam os companheiros falecidos por meio de estandartes com suas fotografias e coroas de flores, enquanto os moradores ornamentam portas e calçadas com altares.


Foto: Alberto Lefèvre

A pesquisa do CECP detalhou a complexa dinâmica ritual:

  • O Encontro e o Mastro: O mastro de São Benedito — com faixas espirais e ornamento dourado no topo — sai da Capela de São Benedito e Santa Cruz com a coroa, a bandeira e a imagem do santo. A cavalaria o escolta até a Igreja do Puríssimo Coração de Maria (Igreja de São Benedito) junto às Caixas de São Benedito (quatro devotos que anunciam o ritual), congadas e moçambiques. Diante do templo, o mastro é erguido, não antes que os devotos joguem em sua base bilhetes de pedidos e agradecimentos.

  • A Meia-Lua: O cortejo segue para a Praça São Gonçalo e executa o rito da "meia-lua", manobra e giro equestre que resgata as evoluções originais dos antigos cavaleiros.

  • Andor de São Gonçalo e São Benedito: Doada em 1990 à Igreja Matriz, a imagem de São Gonçalo abre o cortejo em carros que levam o andor e, na procissão a pé de segunda-feira, é conduzida pelos próprios cavaleiros (enquanto o andor de São Benedito é carregado pela Irmandade). No mesmo andor segue a imagem de São Benedito; os dois santos, lado a lado, materializam o caráter bidevocional do cortejo.

  • Os Estandartes e Bandeiras: Cumprem três funções no cortejo: os religiosos trazem as imagens de São Gonçalo e São Benedito; os institucionais, que abrem o desfile ao lado das bandeiras do Brasil, de São Paulo e de Guaratinguetá, identificam a Associação e os clubes agregados; e os de homenagem póstuma, carregados por familiares e amigos, trazem fotos de cavaleiros falecidos, e ganham destaque nas paradas diante dos cemitérios.

A Hierarquia 

Foto: Alberto Lefèvre

Foto: Alberto Lefèvre

O levantamento do CECP sistematizou a estrutura organizacional e familiar que preserva a ordem e a memória do bem imaterial, identificando os papéis de cada integrante:

  • Mantenas:

    Os guardiões da memória e do rito, obrigatoriamente membros da Associação, responsáveis por conduzir bandeiras e manter a ordem. Vestem terno branco e gravata preta (homens) ou faixa e gravata cor-de-rosa (mulheres). Distinguem-se pelo uso conjunto do conjunto de insígnias no traje: o cravo vermelho à esquerda, o broche de São Gonçalo à direita (marca da devoção ao padroeiro dos viajantes), o broche de São Benedito à esquerda (devoção afro-brasileira), além do broche da Associação e o emblema do ano.

  • Chefe de Honra: Cargo vitalício e simbólico reservado ao mantena mais antigo, atualmente ocupado por Geraldo Terra, de 89 anos, que participa do cortejo desde a década de 1960. É o único, ao lado do presidente da Associação, autorizado a vestir gravata vermelha.

  • Presidente da Associação: Lidera a Associação Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito, discursa nas solenidades, articula com o poder público e desfila com gravata vermelha e esporas na bota. Atualmente o cargo é ocupado por Fernando Guimarães.

  • Irmandade e Reis: Liderada por Izolina Bittencourt, a Irmandade preserva os símbolos afro-católicos desde 1757 e acompanha o Casal de Reis (no ano de 2025 ocupado por José Messias e Maria Helena de Oliveira), resguardando a tradição da coroação de reis.

  • Organização dos Grupos: Além dos mantenas, o desfile conta com seis clubes agregados com uniformes e identidades próprias (sendo quatro dedicados aos equinos e dois aos muares) e a Fila de Branco, destinada a cavaleiros e amazonas sem filiação fixa mediante cadastro prévio.

  • A Solidariedade do Empréstimo: A pesquisa registrou a permanência da cessão gratuita e do aluguel de animais por famílias locais, prática de devoção cuja memória oral remonta à cessão de montarias e arreios pelos fazendeiros para que as pessoas escravizadas pudessem festejar no século XIX.

  • Tradição Passada por Gerações: O cortejo permanece vivo dentro dos lares de Guaratinguetá. Na casa de Geraldo Terra, a manhã de Páscoa mobiliza toda a família: sua filha, Bilú, passa o terno branco e prende o cravo vermelho na lapela do pai, enquanto os sobrinhos dão banho e ferram os cavalos. Bilú sai como mantena carregando o estandarte de Nossa Senhora Aparecida, cumprindo uma promessa feita por seu pai ao nascer com complicações de saúde. Da mesma forma, Luiz Cláudio, mantena há mais de 40 anos, desfilou por anos ao lado do pai e herdou a sela usada por ele durante quase seis décadas, mantendo a peça como relíquia para repassá-la ao filho.

O registro aprovado pelo Iphan com base no dossiê do CECP serve agora como alicerce para as ações contínuas de salvaguarda, garantindo a proteção da memória e a continuidade da celebração para as próximas gerações.

SOBRE O CENTRO DE ESTUDOS DA CULTURA POPULAR (CECP)

O Centro de Estudos da Cultura Popular (CECP) é uma organização social sem fins lucrativos, criada em abril de 1999. A instituição tem sede em São José dos Campos e, atualmente, faz a gestão do Museu do Folclore, mediante Termo de Colaboração assinado com a Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR) e do Ecomuseu dos Campos de São José em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental. A organização tem como finalidade estudar, pesquisar, difundir, valorizar e estimular todos os patrimônios (material e imaterial) e toda expressão da cultura popular. Atua na elaboração e execução de projetos, assessoria e orientação técnica e científica, garantindo uma conduta museológica com objetivo de desenvolver políticas de salvaguarda do patrimônio material e imaterial.

Contato para a Imprensa:

  • CECP - Assessoria de Imprensa / Comunicação

  • E-mail: comunica@cecp.org.br

  • Telefones: (12) 98163-8288 / (12) 99677-5272 

  • Canais: | Redes Sociais: @cecp.cultura

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Museu Vivo destaca música sertaneja, bordado e doce de abóbora na vivência do mês de abril

A mineira Ana Rosa vai compartilhar uma receita de doce de abóbora

Música sertaneja, bordado e doce de abóbora. Estes são os saberes que estarão em evidência no Museu Vivo deste domingo (26), das 14h às 17h, no Museu do Folclore Angela Savastano, no Parque da Cidade. A vivência é aberta ao público e ocorre na área externa do museu.

Para compartilhar estes saberes, foram convidados três representantes da cultura popular, todos nascidos em Minas Gerais. Na música, José das Dores Ramos comandará o Quarteto Havaí; no artesanato (bordado), Sofia de Farias Ramos, e na culinária (doce de abóbora), Ana Rosa dos Santos. 

Música

Natural de Muriaé, Havaí começou na música com 15 anos, tocando cavaquinho, viola e violão. Atualmente, dedica-se apenas ao violão. Com o quarteto – formado por ele, Robertinho, Moraisito e Amilton –, ele já atua há pelo menos seis anos. Já participou de outras edições do Museu Vivo por meio da dupla Minuano e Havaí.

Artesanato

Dona Sofia nasceu em Candelária e aprendeu a costurar, bordar e cozinhar com a mãe e avós. Ela participa do Museu Vivo desde 2015, quase sempre na área da culinária. Sua história também está contada na Coleção Cadernos de Folclore (volumes 23 e 30).

Culinária

Nascida em Sapucaí Mirim, Ana Rosa cresceu na roça, em uma fazenda da família. Sempre acompanhou a mãe na cozinha e foi aprendendo as coisas de olho, “xeretando”, como brinca. Gosta mesmo de cozinhar doces (de laranja e de mamão), além de bolo de milho e paçoca, receitas que já compartilhou no Museu Vivo.

Gestão

O Museu do Folclore é um espaço da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, que funciona desde 1997 no Parque da Cidade. Sua gestão é feita pelo CECP (Centro de Estudos da Cultura Popular), organização da sociedade civil sem fins lucrativos.

 

  • Museu do Folclore Angela Savastano
  • Av. Olivo Gomes, 100 – Santana (Parque da Cidade)
  • (12) 3924-7318 ou (12) 3924-7354
  • www.museudofolclore.org

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Terças com Museologia aborda diferença entre musealizar e museificar no próximo dia 28

Objetos na Sala das Tecnologias da exposição 
de longa duração do Museu do Folclore
Foto: Adenir Brito

O Museu do Folclore Angela Savastano realizará no próximo dia 28 de abril mais uma edição do Terças com Museologia. A proposta é fazer uma reflexão sobre a diferença entre musealizar e museificar, dois conceitos importantes da museologia que, muitas vezes, são usados como sinônimos, mas têm significados diferentes.

A atividade é gratuita e ocorre de forma virtual, das 9h30 às 11h, com transmissão pelo Google Meet. Podem participar pesquisadores, professores, educadores e demais interessados pelos assuntos abordados. A inscrição deve ser feita pela plataforma Sympla.

Todas os encontros do Terças com Museologia são gravados e disponibilizados na página do Museu do Folclore no YouTube. Desde 2023, quando o programa passou a ser realizado, já foram promovidos 27 encontros abordando diferentes temas ligados à museologia. 

Diferenças

A musealização está relacionada ao processo de atribuir valor a um objeto ou prática, reconhecendo seu significado cultural, histórico ou simbólico. Já a museificação pode envolver a transformação de objetos, espaços ou até modos de vida em algo museal, associado a processos de fixação ou cristalização.

“Queremos discutir estas diferenças de forma acessível, aproximando o público destes conceitos e mostrando como eles aparecem tanto no cotidiano dos museus quanto fora deles, refletindo sobre as formas como construímos memória e significado”, destaca a museóloga do Museu do Folclore, Mariana Boujadi, mediadora do encontro.

Gestão

O Museu do Folclore é um espaço da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, que funciona desde 1997 no Parque da Cidade. Sua gestão é feita pelo CECP (Centro de Estudos da Cultura Popular), organização da sociedade civil sem fins lucrativos.

 

  • Museu do Folclore Angela Savastano
  • Av. Olivo Gomes, 100 – Santana (Parque da Cidade)
  • (12) 3924-7318 ou (12) 3924-7354
  • www.museudofolclore.org